Não podemos ter duas vezes o mesmo banho de rio.
Suas correntes
o fazem parecer mutante.
Mas nossa caixa craniana
incuba inconstantes rebentos
e nossa caixa toráxica,
potentes arrombos.
Ao descansar à margem,
algo lhe sobe a perna.
E prepara o beijo.
Após o banho,
algo lhe sobe a perna.
Mas o contraste é gritante,
a mentalidade de rebanho
não se vê presente.
Após o banho,
algo lhe sobe a perna.
Você pensa se tratar da água
que desce pelo corpo.
Mas impossível,
definitivamente
é algo que lhe sobe a perna.
Algo lhe escala o corpo.
E lhe prepara o beijo,
o beijo de quem percebe a morte certa.
E então, qual a herança? O que lhe resta?
O agora.
As vestes,
o trajeto,
o dejeto.
Obediência.
Correntes.
Foi tempo onde tudo era,
o agora é agora.
Mas ainda assim seus pés estão sujos
do cascalho do caminho.
Olhe para baixo,
um escorpião lhe sobe a perna.
