Sunday, March 26, 2006

Uma boquinha

Afinal,
qual é a idéia mesmo por trás da condição de estrela?

Matéria inorgânica em combustão,
é essa a idéia.

Suas imagens,
sempre viajam por longas distâncias antes de chegar até mim.
E quando chegam,
as vezes nem são mais o que costumavam ser.

E do alto do meu prédio,
reconheço todas olhando para o céu.
Consigo dar nomes,
contar a história de cada uma delas.

Desde proto-estrela até se tornar uma anã-branca.
As pessoas encolhem com a idade.

E todas (pessoas, estrelas),
sem exceção.

Proclamam um suntuoso futuro mineral,
tão sólido, tão real.
Que algumas vezes,
até parecem de verdade (pessoas, estrelas).

Todas (pessoas, estrelas) aguardam ansiosas o futuro mineral.
Fazem conjecturas.

E assim, ele já se vê presente.

Se solidifica. E todas já sabem como será o futuro mineral.
O tão aguardado futuro mineral.

Todas então se programam e fazem os ajustes necessários.

Mas em virtude de tais medidas,
o futuro se altera.
Mesmo ainda sendo o mesmo para as que o esperam.

Mas para aquelas mais bem informadas,
a questão passa a ser:
Qual será nosso futuro futuro mineral?

Em volta,
tudo já foi pensado. Resta muito pouco para mim.

Décadas de desenvolvimento,
e um computador.

Desertos, podem com facilidade,
se transformar,
nos vidros quadrados da minha janela.

Que ao refletir a luz, me lembra do brilho,
da beleza,
de nosso futuro futuro mineral.

Tão sólido, tão real.
Mais um pouco (alguns anos talvez),
e começo a achar que é realidade.

Talvez tenha alguma coisa a ver com aquilo que acontece
com a idade.

Os velhos:
se cansam.
E sentem dores nas costas.

Esperam, ansiosos,
pela hora de jantar.

E acham que estão munidos
de olhos para ver.
Sim, para ver.
Mas só o que está para ser visto.
Só o que se deixa ser visto.

Já vi de tudo. Com esses olhos,
que um dia,
a terra há de comer.

Mas a terra, não participará
sozinha deste banquete.
As pedras não perderiam por nada
essa boquinha. Nariz.
Testa. Orelhas. Todo resto.
Não somente os olhos ou a boquinha.

Tuesday, March 14, 2006

O cara que se caga

Olho para o teto.
Estou inquieto.
Resolvo praticar aquilo que eu li em uma dessas revistas de Nova Era.
Deixar minha mente livre de qualquer pensamento.
Não consigo.

Viro para o lado.
Encaro agora a parede branca.
Serão as coisas tão ruins dessa forma?
Mas será que
De alguma outra,
Seriam melhores?
(noto o caráter conservador dessa minha reflexão)

Onde estará o problema?
Na gente,
No estado,
No setor privado?

Reviro para o outro lado.
Agora o armário
Aberto.
Roupa de cama,
Calças,
Camisas de botão
E uma televisão
Aposentada.

Torno a me virar.
Acendo a luz da luminária
E começo a ler um livro.
Tenho a esperança

De em breve cair no sono.

“Bendito seja o mesmo sol de outras terra
que faz meus irmãos todos os homens”

Se todos os homens são irmãos,
Quem é o pai?
Sempre haverá de ter um pai,
Mas...
Será que não há pai?
Será?

Começo a gritar:

-Oh pai! Responda-me! Pai! Pai! Você está aí?

Minha mãe entra no quarto.
Pergunta se eu estou ficando maluco,
ou se eu resolvi virar evangélico.

Mas sempre haverá um pai.
Nem que esse,
Seja o sol.

Mas, segundo Pessoa,
O homem verdadeiro
E primitivo,
Não adorava o sol,
Nem o ouro,
Nem o Deus,
Nem a arte,
Ou a moral.

Mas também. E acima de tudo.
Não eram irmãos.
Afinal, não tinham um pai.
E é claro,
Esta não deixa de ser uma vantagem.
Não, não se trata de uma demonstração de revolta contra meu pai,
Contra meu irmão,
Ou contra a instituição da família.
É só um constatação.

Apago a luminária (abajour é um pouco romântico demais,
Até mesmo porque
se trata mais de uma luminária o objeto pendendendo sobre a minha cabeça.
Abajour lembra aquela coisa redondinha,
com aquele negócio em cima que as pessoas não sabem o nome.

Além do que,
Quando se fala em abajour,
as pessoas logo lembram daquela luz quente, amarelada.
A luz da luminária não.
É branca, fria, dura.
Ou será só eu que vejo dessa forma?)

Muito bem,
Apago a luminária.
As luzes da rua proporcionam uma iluminação.
Suficiente para que eu possa ver a bagunça
Do meu quarto.
Além de formar uma série de listras
No teto.
E é para lá que eu olho.
Novamente a meditação.
Fecho os olhos,
Tento sentir minha respiração.

Outra vez,
Inconvenientes pensamentos.
Puta merda,
Começo a ficar tenso,
Sei que em cinco horas eu tenho que estar de pé.
E isso só me faz
Ficar acordado.
Sei disso.
Me sinto como aquele cara que se cagava.
Após frequentar o psicólogo,
Aceitava a sua condição,
E até mesmo,
Se tornava popular.

Até imagino:

-Ih, olha lá, é aquele cara que se caga.
-É verdade! Pô, isso que é ter personalidade!

Monday, January 16, 2006

O beijo


Não podemos ter duas vezes o mesmo banho de rio.

Suas correntes
o fazem parecer mutante.
Mas nossa caixa craniana
incuba inconstantes rebentos
e nossa caixa toráxica,
potentes arrombos.

Ao descansar à margem,
algo lhe sobe a perna.
E prepara o beijo.

Após o banho,
algo lhe sobe a perna.

Mas o contraste é gritante,
a mentalidade de rebanho
não se vê presente.

Após o banho,
algo lhe sobe a perna.

Você pensa se tratar da água
que desce pelo corpo.
Mas impossível,
definitivamente
é algo que lhe sobe a perna.

Algo lhe escala o corpo.
E lhe prepara o beijo,
o beijo de quem percebe a morte certa.

E então, qual a herança? O que lhe resta?

O agora.
As vestes,
o trajeto,
o dejeto.
Obediência.

Correntes.

Foi tempo onde tudo era,
o agora é agora.
Mas ainda assim seus pés estão sujos
do cascalho do caminho.

Olhe para baixo,
um escorpião lhe sobe a perna.

Tuesday, January 03, 2006

A confecção de um ponto

Não me faz mal nenhum.
Seria esta frase um desejo, ou
uma desculpa.

Aponto a arma,
como quem aponta um lápis, ou
afia uma faca.
Utilizada impunemente para limpar peixe.

A verdade, é que a verdade
ainda é um bom negócio,
e é claro, o cliente sempre tem razão.

No centro da terra,
todas as direções apontam para cima.

Mas devo avisar:
não espere
meu corpo chegar,
até a curva,
onde supostamente,
ele deveria estar,
caso arremessado
para dentro do buraco.
Ou caso arrancado
após puxar os próprios cabelos.

Avisarei apenas sete vezes:
eu não estarei lá

conforme previamente combinado.

Conforme previamente combinado.

conforme previamente combinado.

Conforme previamente combinado.

conforme previamente combinado.

Conforme previamente combinado.

Conforme previamente combinado.

- É uma beleza este listrado, pena não combinar com as cortinas.
- Mas e estas flores? Ficam em cima da mesa?
- Não embaixo.
- Mas... será que ele vai aparecer?
- Pouco provável.

No centro da terra,
todas as direções apontam para baixo.

E enfim, apareço vestindo um lindo listrado.

No centro da terra,
todas as direções apontam para a esquerda.

No centro da terra,
todas as direções apontam para a direita.

E só ir lá pra ver.