Tuesday, March 14, 2006

O cara que se caga

Olho para o teto.
Estou inquieto.
Resolvo praticar aquilo que eu li em uma dessas revistas de Nova Era.
Deixar minha mente livre de qualquer pensamento.
Não consigo.

Viro para o lado.
Encaro agora a parede branca.
Serão as coisas tão ruins dessa forma?
Mas será que
De alguma outra,
Seriam melhores?
(noto o caráter conservador dessa minha reflexão)

Onde estará o problema?
Na gente,
No estado,
No setor privado?

Reviro para o outro lado.
Agora o armário
Aberto.
Roupa de cama,
Calças,
Camisas de botão
E uma televisão
Aposentada.

Torno a me virar.
Acendo a luz da luminária
E começo a ler um livro.
Tenho a esperança

De em breve cair no sono.

“Bendito seja o mesmo sol de outras terra
que faz meus irmãos todos os homens”

Se todos os homens são irmãos,
Quem é o pai?
Sempre haverá de ter um pai,
Mas...
Será que não há pai?
Será?

Começo a gritar:

-Oh pai! Responda-me! Pai! Pai! Você está aí?

Minha mãe entra no quarto.
Pergunta se eu estou ficando maluco,
ou se eu resolvi virar evangélico.

Mas sempre haverá um pai.
Nem que esse,
Seja o sol.

Mas, segundo Pessoa,
O homem verdadeiro
E primitivo,
Não adorava o sol,
Nem o ouro,
Nem o Deus,
Nem a arte,
Ou a moral.

Mas também. E acima de tudo.
Não eram irmãos.
Afinal, não tinham um pai.
E é claro,
Esta não deixa de ser uma vantagem.
Não, não se trata de uma demonstração de revolta contra meu pai,
Contra meu irmão,
Ou contra a instituição da família.
É só um constatação.

Apago a luminária (abajour é um pouco romântico demais,
Até mesmo porque
se trata mais de uma luminária o objeto pendendendo sobre a minha cabeça.
Abajour lembra aquela coisa redondinha,
com aquele negócio em cima que as pessoas não sabem o nome.

Além do que,
Quando se fala em abajour,
as pessoas logo lembram daquela luz quente, amarelada.
A luz da luminária não.
É branca, fria, dura.
Ou será só eu que vejo dessa forma?)

Muito bem,
Apago a luminária.
As luzes da rua proporcionam uma iluminação.
Suficiente para que eu possa ver a bagunça
Do meu quarto.
Além de formar uma série de listras
No teto.
E é para lá que eu olho.
Novamente a meditação.
Fecho os olhos,
Tento sentir minha respiração.

Outra vez,
Inconvenientes pensamentos.
Puta merda,
Começo a ficar tenso,
Sei que em cinco horas eu tenho que estar de pé.
E isso só me faz
Ficar acordado.
Sei disso.
Me sinto como aquele cara que se cagava.
Após frequentar o psicólogo,
Aceitava a sua condição,
E até mesmo,
Se tornava popular.

Até imagino:

-Ih, olha lá, é aquele cara que se caga.
-É verdade! Pô, isso que é ter personalidade!

1 comment:

nucci said...

po muito bom cara